Atividade Expressiva
O Espelho Mágico – baseado no mito de Narciso


Desconstrução do egocentrismo que produz violência ou o isolamento e, ainda, escraviza a perfeccionismo

Mito de Narciso nos remete a uma atividade que nos faz simbolicamente olharmos para dentro da nossa própria alma, como também ampliar esse amor e respeito pelos outros de nós, e olharmos para dentro e olharmos os nossos padrões já desgastados, que não correspondem aos desígnios e necessidades de nossa alma. Quanto mais inconscientes estivermos de nossas sombras, de nossas limitações e capacidades, de nossa inferioridade, mais as projetamos no outro, e menos capacidade de trocas significativas com o outro e com o mundo fica comprometida. 


Moldura do nosso próprio espelho


Porta retrato


A CASA DOS MIL ESPELHOS

Há algum tempo atrás existia, numa distante e pequena vila, um lugar conhecido como A Casa dos Mil Espelhos.

Certo dia, um pequeno e feliz cãozinho soube deste lugar e decidiu visitar.

Quando lá chegou, saltitou feliz escada acima até a entrada da casa. Olhou através da porta de entrada com suas orelhinhas bem levantadas e abanando a sua cauda, tão rapidamente quanto podia.

Para sua grande surpresa, deparou-se com outros mil pequenos e felizes cãezinhos, todos a abanarem as suas caudas, tão rapidamente quanto a dele.

Nesse momento, deu um enorme sorriso e foi correspondido com mil sorrisos enormes. Quando saiu da casa pensou: 'Que lugar maravilhoso! Voltarei sempre, um milhão de vezes'.


Na mesma vila havia outro pequeno cãozinho, não tão feliz quanto o primeiro, que decidiu também visitar a casa.

Subiu lentamente as escadas e espreitou através da porta.

Quando viu mil cães a olhá-lo fixamente, rosnou e mostrou os dentes e ficou assustado ao ver mil cães a rosnar-lhe e a mostrar-lhe os dentes.

Saiu a correr e pensou: "Que lugar horrível, nunca mais volto aqui!"

Todos os rostos no mundo são espelhos.

Marcadores: casa dos mil espelhos, contos japoneses, contos mestres, contos para crianças, contos populares, contos tradicionais, contos zen, o cão e o espelho

Meditação

Respire profundamente três vezes

Agora fechem os olhos

Agora, imagine que você está num quarto escuro.

Você ainda não pode ver nada, mas há um grande espelho na sua frente.

Enquanto o quarto se tons claro, você passa a ser capaz de ver a sua imagem refletida no espelho. Esta imagem pode ser totalmente diferente da imagem que você usualmente vê ou pode ser igual.  apenas olhe para a escuridão e deixe esta imagem emergir à medida que a luz aumenta.

Você logo será capaz de vê-la claramente,

Como é esta imagem?

O que se estaca mais nesta imagem?

Como é a sua postura?

Como se move?

Como é a sua expressão facial?

Que sentimento ou atitude esta imagem exprime facial?

Que sentimentos ou atitude esta imagem exprime?

Como se sente em relação a esta imagem?

Agora converse silenciosamente com esta imagem e admita que ela pode falar com você

O que você diz a esta imagem e o que ela responde?

Como se sente ao falar com ela?

Agora troque de lugar e torne-se a imagem no espelho.

Sendo esta imagem como você é?

Como se sente?

O que você diz a si próprio ao continuar o diálogo entre vocês:?

Comente ainda mais sobre a sua experiência de ser esta imagem

Prossiga a conversa entre a imagem e você mesmo durante algum tempo, e veja o que mais pode descobrir sobre vocês dois.

Troque de lugar sempre que quiser, mas prossiga o diálogo e a interação

Agora torne-se você mesmo e olhe novamente para a imagem no espelho

Como se sente agora com relação à imagem?

Há qualquer modificação agora, comparando-se com quando a viu pela primeira vez?

Há algo que você queira dizer a ela antes de dizer adeus?

Agora, lentamente diga adeus a ela. E volte à sua existência nesta sala.

Fique quieto e absorva a experiência por algum tempo

 

Como surgiu o espelho?

As primeiras superfícies capazes de refletir imagens começaram a ser feitas há cerca de 5 mil anos na antiga Suméria - região no atual Iraque, englobando áreas próximas à cidade de Bagdá.

Os espelhos dessa época não produziam imagens nítidas, pois eram placas de bronze polidas com areia. Na Antiguidade, esses instrumentos de metal chegaram às mãos dos gregos e romanos e a partir daí foram se espalhando pela Europa até se tornarem conhecidos em todo o continente no final da Idade Média. "Até por volta do século 13, os espelhos eram feitos de metal polido, ligas de prata ou bronze duras o suficiente para aguentar o processo de polimento mecânico e não riscar facilmente", diz o engenheiro Hélio Goldenstein, da USP.

 Os primeiros espelhos de vidro só surgiriam no início do século 14, criados por artesãos de Veneza, na Itália, que desenvolveram uma mistura de estanho e mercúrio que, aplicada sobre um vidro plano, formava uma fina camada refletora.

Os espelhos venezianos eram famosos pela qualidade e seu método de fabricação era mantido em segredo. Mas, além do alto custo, a produção causava problemas aos artesãos, que se contaminavam com mercúrio, material altamente poluente. "Só no século 19 foram descobertas formas de espelhar o vidro com prata química, sem a necessidade do mercúrio", afirma Hélio. A nova técnica, mais segura, simples e barata, popularizou os espelhos pelo mundo

Atividade Expressiva baseada no mito de Narciso.

Abordamos os aspectos do narcisista e como olhar com os olhos da alma.

O transtorno de personalidade narcisista é caracterizado por um padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, que começa na idade adulta e está presente em uma variedade de contextos. Indivíduos narcisistas são caracterizados por fantasias irreais de sucesso e senso de serem únicos, hipersensibilidade à avaliação de outros, sentimentos de autoridade e esperam tratamento especial. Frequentemente apresentam sentimento de superioridade, exagero de suas capacidades e talentos, necessidade de atenção, arrogância e comportamentos autorreferentes. Exibem exagerada centralização em si mesmos, geralmente acompanhada de adaptação superficialmente eficaz, adaptam-se às exigências morais do ambiente como preço a pagar pela admiração; porém, tem sérias distorções em suas relações internas com outras pessoas.

Nas mandalas  em geral se relaciona com os cuidados maternos. Tons escuros podem estar relacionados com cuidados maternos dominadores, vorazes ou impessoais. Na mandala de uma mu7lher, o azul revela sentimentos positivos a respeito dos cuidados maternos.

Pode revelar  o despertar da intuição, a obtenção de sabe3doria e o desenvolvimento de uma filosofia de vida mais profunda e significativa. É possível que se relacione com a experiência dolorosa de uma noite escura da alma, sentimentos de depressão, de perda ou de confusão. Como a noite escura que deve ser enfrentada antes da alvorada da iluminação, o aparecimento do azul pressagia um renascimento psicológico. Refere-se a capacidade de ver além do ciclo de morte /renascimento, isto é a realidade intemporal que transcende as formas visíveis.

 

Se o seu medo é AZUL ESCURO:

A razão de você estar vivenciando esse medo é porque, em algum momento de sua vida, você bloqueou sua sensibilidade ao decidir se defender de algo que você considerava um sofrimento: "é melhor não sentir, pois isso pode doer..."
A escolha dessa freqüência de cor demonstra que vem ocorrendo uma descentralização de seu próprio ser e, ou foi a própria descentralização que ocasionou o seu medo ou ela passou a existir em sua vida a partir do fato que o levou a vivenciar esse sentimento de medo. A falta de domínio sobre o processo, decorrente do impedimento da livre expressão da sensibilidade, atrai para sua vida contínuas situações onde pessoas de seu relacionamento lhe incomodam ao tentar obrigar você a agir de determinada forma ou a tentar impedir que sua ação transcorra da maneira como você decidiu ou como você prefere. Um sentido de invasão e desrespeito às suas próprias vontades e necessidades interiores acaba ocorrendo e você nem mesmo percebe que, exatamente, sua própria vibração freqüencial é que acaba atraindo essa situação para sua vida. 
Ora esse processo é acompanhado de revolta e ora de culpa por não atender às expectativas de pessoas que lhe são importantes. Mas, independente de qual seja sua reação predominante, essa falta de domínio sobre sua própria vontade abala a sua "confiança interior", desenvolvendo, em alguns casos, um sentido de "talvez estar sendo injusto" e em outros casos um sentido de "cansaço em lutar contra situações tão desgastantes". Isso ocorre, basicamente, por você se manter desconectado do ponto mais essencial de seu ser: o seu próprio "Eu"! 
Seus objetivos de vida, principalmente os pessoais, se abalam quando você avalia o esforço exigido para enfrentar as imposições. Você já se sente cansado ou revoltado antes de tentar concretizar o que quer e, o mais complicado, é que dependendo do tempo em que você vem passando por isso, é como se você já nem mesmo soubesse o que, você, realmente quer. Em momentos oscilatórios, parece que nem vale muito a pena lutar, já que aquilo que você quer realizar vai exigir muito de você e, ainda, observa que os sentimentos que vêm à tona são na maior parte das vezes passivos e negativos, tristes e depressivos. 
Dá pra imaginar ou perceber que é quase impossível evitar um sentido de frustração, não é mesmo? Você sente uma desestruturação que antecede as possibilidades. O mais interessante é que, quando você consegue estar isolado de determinadas presenças ou situações e se torna possível você avaliar a situação de fora, é quase ilógico tudo o que você vivencia! 
Toda essa somatória de incertezas gera uma imprecisão em seus atos. Como a ausência da sensibilidade se instalou num sentido de defesa interior e, por isso sua intuição ficou bloqueada, a facilidade que poderia decorrer do livre fluir intuitivo nos seus direcionamentos, decisões e na organização de sua vida se torna quase impossível. 
Por estar assim, tudo comumente lhe parece tão desorganizado... A casa, o carro, as etapas, as roupas, a cozinha, a mesa de trabalho, enfim... O resultado é que nunca há tempo de concluir a organização. É muito comum que a casa, o quarto ou o espaço de trabalho do "portador" de um medo azul índigo esteja sempre aguardando a ordem final. 
Quando a pessoa já consegue manter a ordem em suas coisas, em seus negócios, em seus objetos, em seu trabalho, em seu carro, etc, o processo é sempre cansativo pelo esforço que se tem que fazer para chegar a isso e para manter tal ordem.
Isso acontece porque a atenção aprisionada ao mundo concreto, mais uma vez, impede que se mantenha o domínio essencial que pode estruturar critérios equilibrados e adequados. Portanto, a desatenção essencial ocasiona a perda de critérios e em conseqüência não se consegue alimentar a confiança em si, no outro, nos objetivos, nos propósitos e nos passos a serem dados.
A direção a ser tomada em suas buscas e objetivos não é percebida, vista ou reconhecida porque sem o contato essencial com seu "Eu" a intuição fica profundamente comprometida e impedida de reconhecer metas efetivas. 
A síntese de toda essa realidade gera um sentido de falta de amor que é vivenciada quando o exigir se desequilibra. A primeira sensação de "invasão" faz com que um sentido de "exigência que inferioriza ou tenta inferiorizar" leve você a reagir desequilibradamente, procurando se reforçar nas reações e, pelo próprio processo, a tentativa de superioridade adotada como defesa, muitas vezes fracassa e fica difícil compreender ou aceitar as outras pessoas de seus relacionamentos e, ao mesmo tempo é inevitável que você perceba compreensão ou evite a incompreensão por parte das pessoas de seus relacionamentos. Compartilhar, aceitar, doar ou qualquer dos movimentos naturais da expressão do Amor ficam aprisionados e impedem o prazer. Então, as ações se concluem "mornas", sem retorno de especial significado. 
O segredo para você é esse: é preciso permanecer em si! Centrado! No próprio eixo! Exercendo o poder mais natural e de maior força que trazemos: o nosso Poder da Vontade!

Sugestão para o MEDO AZUL ESCURO:

Pratique, diariamente, o seguinte exercício de Imagem Mental e lembre-se: 
A imaginação é uma poderosa ferramenta de Criação da Realidade da Vida. 
É importante ressaltar que, nos exercícios de Imagem Mental, basta imaginar! A necessidade de "ver com os olhos fechados" pode criar alguns bloqueios na imaginação. Ao invés de jogar a imagem para os olhos físicos, permita que seu pensamento fique livre, se estruture naturalmente em sua mente e decida sentir cada coisa que for imaginando. Realmente, é só imaginar! A imaginação é uma poderosa ferramenta de Criação da Realidade da Vida.

Então, feche os olhos por alguns minutos, respire tranqüilamente, mantenha-se numa posição confortável deitado ou sentado. Passe a perceber que a cada ato de inspirar ou expirar você completa ciclos de purificação. Sinta-se tranqüilo, relaxado e purificado. 
Passe a imaginar que você está vendo sua imagem projetada em uma placa espelhada inquebrável. Despreocupe-se. É uma simples placa reflexiva de qualquer material à sua frente. Assista, como que em imagens consecutivas, a todas as dificuldades que você vivencia em sua vida e que geram o medo índigo ou resultam dele. Vá congelando as sensações ruins que envolvem sua vida nessa placa reflexiva. Quando congelar as necessárias imagens passe a observar que uma luz muito intensa consome as imagens congeladas com três fachos que se projetam como se saindo das três pontas de um triângulo em seu peito nas tonalidades Violeta, Verde e Dourada.
Quando a placa estiver limpa, projete em toda ela uma única imagem de você mesmo com todas as suas necessidades supridas, com seus planos acontecidos, com seus ideais almejados já alcançados, enfim. 
Assista então, como que em cena fragmentada, que a placa, antes inquebrável, agora se separa em vários pedaços em proporção de fácil manuseio e cai, se espalha no chão e se acumula. Então, crie um código de ordem ou organização, marcando as peças, criando um caminho e montando a cena como que em um enorme quebra-cabeça.
Monte seu quebra-cabeça com prazer e certeza de adequação e equilíbrio em sua vida. Quando estiver montado, com todas as peças no lugar, imagine que você o reduz, coloca-o em seu coração, e então faça-o crescer, de dentro para fora de seu corpo, até que a imagem fique maior que seu corpo físico e você passe a fazer parte da cena projetada.
Mantenha o exercício em sua vida com bastante freqüência até sentir-se com maior domínio do processo. Você vai ver que interessantes e efetivos são os resultados. 
Mantenha-se com as sensações experimentadas no exercício o maior tempo possível no decorrer de seu dia. Lembre-se, perceba e sinta durante todo o dia que você se mantém na cena ampliada. Pratique esse exercício no mínimo uma vez ao dia. Quanto mais vezes ele for praticado, mais rapidamente você perceberá resultados e efeitos muito positivos em sua vida.

 

 

Atividade Expressiva Mito Narciso

Texto complementares
 

O mito:


Narciso, em grego  Nárkissos (nárkes= torpor, de onde deriva a palavra narcótico), era filho de Liríope e Cefiso. Sua mãe muito assustada com a beleza do filho foi procurar o sábio Tirésias que tinha a capacidade de ver o futuro. Ela perguntou se Narciso viveria até ficar velho e ele responde: “Sim, desde que não veja a própria imagem”. Narciso seguia rejeitando todas as belas donzelas que, exatamente por isso, nutriam profunda paixão por ele.

Um dia a bela ninfa Eco (a quem Hera condenou a repetir sempre a última palavra proferida pelos outros dada sua necessidade de sempre ter a última palavra nas discussões) avistou Narciso, que caçava nas montanhas, e se encantou por tamanha beleza. Narciso ouvindo o barulho, perguntou: “Há alguém aqui?” e Eco respondeu: “Aqui?” Então, Narciso, vendo a ninfa correr em sua direção disse: “Afaste-se. Prefiro morrer a te deixar me possuir”. Eco fugiu envergonhada e se refugiou para sempre nas cavernas. Suas carnes definharam de tanta tristeza. Por isso, Narciso fora castigado por Nêmesis a ter um amor impossível.

Então, um dia, enquanto Narciso caminhava próximo a uma fonte clara, por estar exausto, debruçou-se sobre a fonte e avistou a figura mais perfeita que jamais tinha visto. Não pôde se conter e lançou seus braços em direção àquele ser maravilhoso. Nesse instante, o ser sumiu, para depois retornar. Narciso perguntou: “Porque me rejeitas, bela criatura? Se quando eu sorrio, você sorri? Se não posso te possuir, que pelo menos eu possa mirar para sempre a sua beleza”. E assim, Narciso ficou por dias, meses e anos a mirar a imagem maravilhosa na água. Esquecendo-se de se alimentar, seu corpo perdeu paulatinamente o vigor e as cores, até morrer. As ninfas choraram o seu triste destino e no lugar em que estava seu corpo sem vida, nasceu uma linda flor amarela de mesmo nome.

Considerações psicanalíticas sobre o mito:

Sabemos que os mitos gregos transmitem de forma intensa e poética dramas universais humanos. Penso que a palavra grega nárkes já carrega em si mesma um sentido interessante para discutirmos o torpor, o efeito narcótico e hipnótico que a auto-imagem de Narciso (e de todos nós) possuía sobre ele. E é por isso que o sábio Tirésias disse que ele só poderia chegar à velhice se não avistasse a sua imagem. Nesse sentido, o mito de Narciso contêm uma ideia preciosa sobre a vida e o desenvolvimento mental (chegada à velhice): se não abandonamos esta espécie de torpor ou efeito narcotizante que a nossa imagem (o nosso narcisismo) exerce sobre nós, a vida corre perigo. De acordo com Bion, teremos dificuldade de ir do Narcismo para o Socialismo (vínculos, relação com o outro).

Eco busca Narciso:

É interessante também no mito que seja Eco (que usualmente conhecemos pelo som gerado por uma única voz em lugares grandes e vazios, condição frequentemente encontrada em cavernas) a buscar Narciso. Nesse sentido, podemos considerar que Narciso (aquele que está condenado a amar a si mesmo) não pode se relacionar com nada a não ser com seu próprio Eco.

Nesta passagem, é muito interessante quando Eco diz para Narciso se juntar a ela e ele diz: “Prefiro morrer a te deixar me possuir”. Ou seja, não há nada mais assustador e terrível para o narcisismo que se deixar possuir por um outro, que não ele mesmo. E, tanto no caso do mito quanto no caso de Dorian Gray, a “moral da história” é a mesma: quando a necessidade dos vínculos é negada, quando há um fechamento da libido em si mesmo, negando-se a própria condição de dependência e fragilidade humana, o que resta é a inanição e a morte.

Mas porque assumir a necessidade dos vínculos e a condição de dependência é tão terrível ao narcista? Porque, no caso de Dorian Gray, havia um pacto de amor à própria imagem, que o levou ao enlouquecimento e à morte? Outra questão importante: não haveria dentro de todos nós um estado narcísico (ou pactos narcísicos), que em graus menos ou mais graves, nos levariam à inanição e morte em vida?

Vínculos e dependência

Para responder à primeira questão, é necessário recorrer brevemente a algumas das teorias sobre o narcismo. Freud trouxe contribuições importantes para compreender o narcisismo que, segundo ele, seria um momento desenvolvimental vivido pelo bebê, anterior à descoberta do objeto materno. Segundo Freud, a libido (amor, sexualidade vital) pode estar investida ou catexizada em dois “lugares”: 1) no próprio corpo (o que configuraria uma libido narcísica); 2) no objeto, no outro (libido objetal). Para ele, no início, o bebê investe toda sua libido em si mesmo vivendo um estado de completa completude e onipotência. Por isso ele chama o bebê de “sua majestade”. Aos poucos, este bebê vai descobrindo a necessidade do objeto (leite, afeto materno) e passa a investir sua libido em seu primeiro objeto de amor: a mãe.

Winnicott contribuiu ainda mais com esta compreensão do narcisismo quando disse que, na condição de uma necessidade absoluta do ambiente e de fragilidade física e mental, o bebê precisa que a mãe vá apresentando a ele o mundo em pequenas doses. Por isso, nos primeiros meses de vida, o bebê precisa achar que é ele que cria tudo: o leite, o mundo. É o que ele chama de momento de ilusão. Se a mãe não é sensível o suficiente para tolerar este estado precário do bebê e apresentar a ele o mundo em pequenas doses (porque aqui ele ainda não tem condições de compreender, por exemplo, o que é o tempo e o espaço do seu corpo), falhas cruciais em seu narcisismo vão permanecer e este indivíduo, mesmo adulto, terá dificuldades para dirigir sua libido ao outro.

Alguns outros autores que discutem o narcisismo, por outro lado, consideram que, muito mais do que falhas ambientais, a organização narcisista da personalidade é gerada por uma intensa ação da pulsão de morte que nega toda a realidade da condição humana: a morte, a precariedade física e mental e a necessidade de dependermos do outro. Segundo tais autores, o narcisista (em graus menos acentuados, todos nós temos uma porção narcisista em nossas personalidades), negariam esta realidade, bem como suas realidades internas (dores, angústias e frustrações).

 

Era o que parecia fazer Dorian quando passou a depositar no quadro (duplo dele) todos os aspectos de sua personalidade que não podiam ser tolerados, sonhados e pensados por ele. Esta realidade alucinatória criada por ele obviamente não poderia se manter por muito tempo porque é falsa e contraria totalmente a condição humana finita, limitada e precária. Por isso, o filme mostra a sua paulatina decadência, sofrimento mental e morte.

Assim, seja por falhas ambientais (traumas precoces) vividas pelo bebê, seja por fatores constitucionais que carregam a personalidade com altas doses de pulsão de morte, o fato é que o narcisismo, tal como mito mostra tão bem, por negar a dependência e a importância dos vínculos, remete o sujeito à inanição mental e à morte.

O narcisismo nosso de cada dia:

Levantei uma outra questão intrigante no texto: o narcisismo é um estado patológico ou uma vivência presente (e necessária também) para a manutenção da vida de todos nós? E, se o narcisismo é necessário, quando é que ele começa a ser mortífero e perigoso à vida?

Esta é uma questão difícil. André Green, importante autor psicanalítico contemporâneo, assevera ser necessário discriminarmos o que é narcisismo de vida e narcisismo de morte.

Narcisismo de vida, conforme eu compreendo, é tudo aquilo que nos mantêm em contato conosco, com a nossa auto-estima, com o respeito necessário que temos que ter para conosco, para com as nossas ideias, com o nosso corpo e mente. Alimentar-se bem, exercitar-se com regularidade, amar as próprias ideias e criações, embora também sendo capaz de aceitar e conter o diferente…tudo isso a meu ver é narcisismo de vida e absolutamente crucial para não nos perdermos no outro.

Já o narcisismo de morte estaria ligado à uma excessiva e desmedida preocupação consigo mesmo a ponto de nos esquecermos da existência e necessidades do outro que está ao nosso lado bem como o ódio à nossa condição de dependência e finitude. Estas vivências patológicas e intensas, muito presentes em patologias atuais, tais como, os transtornos de personalidade, são muito danosas ao desenvolvimento porque matam qualquer possibilidade de que o sujeito se abra para os vínculos e para o reconhecimento de suas falhas e limitações.

Dorian Gray e Narciso:

Tanto no caso de Dorian Gray quanto de Narciso o que estava presente era o narcisismo de morte. O que regia suas personalidades era um absoluto ódio diante da condição humana, a arrogância diante do outro e a onipotência. Ressalto que no caso de Dorian Gray, em um dos momentos dramáticos do filme, quando ele mata um de seus melhores amigos, ele parte em uma viagem e envia cartas a um conhecido dizendo que ele era um Deus. Trata-se de um estado delirante e psicótico em que as delimitações entre a realidade e as fantasias ficam borradas, impedindo cada vez mais o sujeito de tolerar suas percepções externas e internas.

Narcisismo e cultura:

Para finalizar, gostaria de situar que, apesar da obra de Oscar Wilde ter sido escrita em 1890, esta é uma temática ainda muito atual e considero que permanecerá sendo enquanto houver humanos sobre a terra.

Particularmente hoje em dia, pelo fato de vivermos um momento histórico em que as pessoas toleram pouco suas frustrações e condição humana, a temática do narcisismo nunca foi mais atual.

 

 

Uma breve reflexão sobre o Narciso Moderno
 

O mito do Narciso é muitas vezes utilizado para ilustrar o que chamamos – graças à psicanálise – de Narcisismo. Comumente, relacionamos ao narcisismo o mesmo que egoismo ou então preocupar-se muito com a própria imagem. No mito grego, Narciso era um jovem que foi condenado, devido à sua arrogância, a apaixonar-se por sua própria imagem. Só que as pessoas só conhecem o lado de “Narciso era apaixonado por si mesmo” e usam isso para falar a respeito de pessoas que não conseguem ver além dos próprios umbigos, ou daqueles que se prendem muito em suas imagens virtuais nas Redes Sociais.

Só que o mito fala muito mais do que isso e o que o mito complementa sobre Narciso pode muito bem nos ajudar a compreender o Narciso Moderno.

O mito do Narciso conta a origem da flor de mesmo nome, uma flor muito bela que só poderia ter sido criada a partir de uma pessoa muito bela. O Narciso do mito era um jovem muito belo e por conta disso, vivia cercado de ninfas. Narciso era mimado e querido e constantemente elogiado. Todas o amavam, mas ele não sabia o que era amar, pois ele não sabia o que era perder. Quando temos de tudo, quando todas nossas necessidades são sanadas, não sabemos o que é a falta, não sabemos valorizar o que realmente é especial e importante e não sabemos nos doar para os outros. Narciso não sabia amar.

Por conta disso, ele ignorou os clamores de amor da ninfa Eco que, por conta do amor não correspondido deprimiu-se e começou a definhar. Quem ama o outro, doa. Mas se esse amor não é correspondido, a pessoa não recebe o retorno de seus gestos e toda essa energia não volta. A pessoa definha. Sobrou à ninfa unicamente repetir o que qualquer pessoa dissesse perto dela, pois até mesmo sua própria voz tinha sumido. Eco nos ensina que precisamos nos relacionar com as outras pessoas, se não, ficamos unicamente replicando e reproduzindo o que os outros dizem.

Por conta dessa posição arrogante de não considerar ou reconhecer a postura do outro, Eco foi castigado pela deusa Hera a sofrer do mesmo mal que causou: de amar alguém que não podia corresponder da mesma forma. Ele foi castigado a apaixonar-se por si mesmo. E para que isso se concretiza-se, Hera fez com que ele cassasse um porco selvagem muito rápido. cansado da perseguição infrutífera, Narciso deixou às margens de um rio para beber água e se refrescar e se deparou com a imagem do ser mais lindo que já viu. Ele apaixona-se por si-mesmo. A história termina aqui e dizem que, por pena, transformaram Narciso em uma flor para que pudesse sempre ser admirado por sua beleza

Mas a nossa reflexão vai além disso. Narciso não é só aquele que se apaixona por si-mesmo, como dizem. Narciso não é aquele chato que, no meio do almoço familiar, fica olhando pra tela do celular e se isola dos outros. A tecnologia, os computadores, os celulares e tablets não são as faces d’água que nos fazem ficar isolados do mundo. Narciso sempre foi isolado do mundo e nunca se preocupou com mais ninguém. Narciso sempre foi mimado e egoista, mesmo antes de ser castigado. Foi graças à arrogância de Narciso que Eco definhou e tornou-se apenas uma fraca repetição das outras pessoas. Mesmo se ele não tivesse nunca mais olhado para seu reflexo, ele continuaria desse jeito.

O que fazemos hoje em dia é culpar o rio pelo ato do Narciso. O que fazemos hoje é dizer que o Narciso não pode olhar para seu reflexo para poder ser uma boa pessoa. Acontece que Narciso nunca foi uma boa pessoa. O espelho não fez nada além daquilo que ele já fazia: ele já era socialmente isolado, ele já era arrogante. ele já era mimado, ele já era egoísta.

Se bem que o castigo o forçou a ver um outro lado que ele não via. O castigo não foi ele se apaixonar por alguém que não podia corresponder – pois ele poderia se apaixonar por uma pedra ou até mesmo por Eco que já era apaixonada por ele. Seu castigo foi simplesmente se apaixonar, se importar com outra pessoa além de si-mesmo. Mas ele era tão incapaz disso que ele acabou se apaixonando por si-mesmo. E continuou não se importando com mais ninguém.

Mas não é isso o que acontece nos dias de hoje, com o Narciso Moderno. O Narciso Moderno é diferente do Narciso Antigo. O Narciso Antigo era egoista e mimado e acabou perdendo-se em si-mesmo. Já o Narciso Moderno não olha para si mesmo nas redes sociais: ele busca contato social através dos aparelhos tecnológicos. Ao ler o jornal, o Narciso quer saber o que aconteceu com as outras pessoas. Ao acessar o Facebook, ele quer se conectar com as pessoas que estão distantes. Ao abrir o Whatsapp, ele quer se comunicar com quem não pode falar no momento.

Porém, para as demais pessoas que presenciam isso, o Narciso Moderno é visto como arrogante, egoísta e mimado, que prefere os contatos virtuais aos contatos presenciais, tal qual o Narciso Antigo. Mas será isso culpa do Narciso Moderno, culpa do celular ou culpa das pessoas que estão à sua volta?

O Narciso Moderno pode ter errado ao não tentar socializar com quem está perto e preferir socializar com quem está longe. Mas o que as pessoas próximas do Narciso Moderno fazem? Elas julgam. E ao julgar, o afastam. Ao contrário do Narciso, quem julga não olha a imagem: raciocina sobre o que é certo e errado e afasta o que é errado. No caso, julgam o ato do Narciso Moderno como errado e o afastam. E o que sobra ao Narciso Moderno? Buscar contato através da distância, pois a distância é a única coisa que ele recebe.

O problema não é da tecnologia. O problema também não é da pessoa. O problema está nas nossas relações sociais que não são de qualidade. Precisamos do contato. Precisamos do vínculo. Buscamos isso nas outras pessoas e não recebemos, pois todos somos um pouco Narciso. E o que fazemos? Caímos no espelho da tecnologia, não para olhar para si-mesmo, mas sim para buscar imagens com as quais nos podemos nos relacionar. Às vezes essa imagem é uma selfie. Outras vezes, essa imagem é a foto de uma pessoa querida que não está perto ou uma mensagem de saudades.

Selfie não é narcisismo. Selfie é recordação, é memória de um evento, lugar, aparência ou situação. Whatsapp não é narcisismo. Whatsapp é comunicação, é proximidade com quem está distante, é lembrança e saudades. Redes sociais não nos tornam narcisistas ou egoistas. A falta de vínculo social faz isso e as redes virtuais apenas dão espaço para aqueles que já estão distantes e separados.

Se estamos julgando quem se distancia de nós através da tecnologia, devemos de fato nos julgar – sermos mais Narciso e olharmos para nós mesmos – e perguntar o que eu estou fazendo ou deixando de fazer que faz com que a outra pessoa prefira buscar um contato virtual a ter uma relação real conosco? Será que sou eu quem está afastando a pessoa ou não estou me esforçando para aproximá-la de mim? E se esse é o caso, por que acho ruim que ela reaja exatamente da forma como estou agindo?

Quando estamos nas Redes Sociais não somos Narciso suficiente. Lá, acabamos sendo mais Echo, colocando-nos como vítimas negligenciadas, buscando a atenção das outras pessoas, mas o que só fazemos é repetir o que os outros fazem. Inclusive, várias pesquisas mostram que nas redes sociais buscamos seguir pessoas que compartilham das mesmas opiniões que nós já temos. Ou então, para poder facilitar o engajamento, o algoritmo do Facebook prioriza postagens que replicam aquilo que você já falou ou curtiu ou compartilhou, mostrando apenas quem concorda com você.

Nosso problema não é sermos Narciso Moderno – sermos alguém que conseguiu olhar para para a imagem, que busca em algum lugar o vínculo que não encontrou nas pessoas à sua volta que só a paparicavam mas que de fato não se importavam com ela. Nosso problema é sermos apenas Ecos Virtuais.

Mas sobre isso, pouco falamos, com medo de apenas ouvir a repetição da nossa última frase…

A nossa última frase.



Leia o texto original aqui http://pablo.deassis.net.br/2015/12/uma-breve-reflexao-sobre-o-narciso-moderno/


ESTÓRIA DE NARCISO E ECO

MITOLOGIA

O mito de Narciso e Eco pode ajudar a compreender a nossa forma de ser nas sociedades contemporâneas.

Existem duas versões mais debatidas sobre o mito de Narciso. Uma, menos tradicional, oriunda do Poeta grego Pausânias, diz que Narciso teria uma irmã gêmea e que ela era o seu reflexo. Outra, considerada a versão original do mito, compreende que Narciso era uma das criaturas mais lindas já existentes. Por causa de sua beleza, as mulheres ficavam encantadas pelo jovem mancebo, filho de Cefiso e Liríope.

O nome Narciso (tema narkhé = torpor, como em narcótico para nós) já parece indicar o que sua existência significaria: sua beleza entorpece, atordoa, embaraça a todos aqueles por quem ela é vista. Mas também, por sua ascendência, Narciso tem estreita relação com a ideia de água, escoamento e fertilidade, por parte de pai, bem como mansidão, voz macia e leveza (por parte de mãe). Tudo isso influenciaria sua vida. Vejamos por quê.

Conta-se que, certa vez, Narciso passeava nos bosques. Perto dali, a ninfa ECO, que era uma tagarela incorrigível, acompanhava-o, admirando sua beleza, mas sem deixar que a notasse. Eco, em virtude de sua tagarelice, foi punida por Hera, esposa de Zeus, para que sempre repetisse os últimos sons que ouvisse (por isso, na física, chamamos de eco a reverberação do som). Por sua vez, Narciso, suspeitando de que estava sendo seguido, perguntou: “quem está aí?”. E ouviu: “Alguém aí?” Então, ele gritou novamente: “Por que foges de mim?”. E ouviu “foges de mim”. Até dizer “Juntemo-nos aqui” e ter como resposta “juntemo-nos aqui”. Toda essa repetição acabou deixando Narciso angustiado por desejar amar algo que não poderia ver.

Dessa forma, Narciso entristeceu-se e foi à beira de um lago, onde, de modo surpreendente, deparou-se com sua imagem nos reflexos da água. Como nunca antes havia se olhado (pois sua mãe foi recomendada a não permitir que isso ocorresse), enamorou-se perdidamente, acreditando ser a pessoa com quem estava “dialogando”. Por isso, tentou buscar incessantemente o seu reflexo, imergindo nas águas nesse intento, mas acabou morrendo afogado. A ninfa Eco sentiu-se culpada e transformou-se em um rochedo, vivendo a emitir os últimos sons que ouve. Do fundo da lagoa, surgiu a flor que recebeu o nome de Narciso e tem as suas características.

O mito de Narciso e Eco é, até hoje, estudado pelos psicólogos. Alguns explicam que o alter ego, isto é, o outro que nos completa, é buscado fora de si, mas sempre como um retorno a si mesmo.  Essa compreensão mostra o quanto somos egoístas em relação às nossas necessidades, a ponto de ser possível uma relação entre um mito da Antiguidade e as sociedades de consumo do sistema capitalista de produção. Isso porque nesse sistema vivemos em busca de preencher o vazio libidinal que nos atormenta, redirecionando nossas pulsões sexuais para a satisfação na aquisição de bens. Ora, é essa tentativa de satisfação que promove um individualismo exarcebado no mundo contemporâneo, sendo, por isso, apelidado de sociedade narcisista.

Por João Francisco P. Cabral

O Mito de Narciso.

ASPECTOS DE NARCISO – NO INDIVÍDUO E NA SOCIEDADE

Este artigo foi gestado em texto de Sérgio Lasta.
Prof. Eustásio de Oliveira Ferraz

 

        Narciso era um belo rapaz indiferente ao amor, filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope. Por ocasião de seu nascimento os pais perguntaram ao adivinho Tirésias qual seria o destino do menino, pois ficaram muito assustados com a sua beleza rara e jamais vista. A resposta foi que ele teria vida longa se não visse a própria face. Muitas moças e ninfas apaixonaram-se por Narciso quando ele chegou à fase adulta, mas o belo jovem não se interessou por nenhuma delas. A ninfa Eco, uma das apaixonadas, não se conformando com a indiferença de Narciso, afastou-se amargurada para um lugar deserto onde definhou até a morte e restaram somente seus gemidos. As moças desprezadas pediram aos deuses que a vingasse. Nêmesis apiedou-se delas e induziu Narciso, depois de uma caçada num dia muito quente, a se debruçar na fonte de Téspias para beber água. Nessa posição ele viu seu rosto refletido na água e se apaixonou pela própria imagem. Descuidando-se de tudo o mais, ele permaneceu imóvel na contemplação ininterrupta de sua face refletida e assim morreu. No local de sua morte apareceu uma flor que recebeu seu nome, dotada também de uma beleza singular, porém narcótica e estéril.

         Narciso é um personagem enigmático e fascinante que traz em si um grande dilema: ver-se ou viver; ver-se e não viver ou não se ver e viver. Não podia conhecer-se, caso contrário não veria a velhice ou a vida eterna, como previra o oráculo. Por isso, era admirado por si mesmo, imobilizado e aprisionado em seu próprio mundo. Não podia se ver para continuar vivendo. Amava e não podia amar, amado, não podia deixar-se amar. Era solitário vagando pela floresta.

         O belo Narciso é independente, porém vive na solidão; evita qualquer aproximação, não respeita a sociabilidade. É imerso em si, anula a alteridade (o outro). Tem tudo, basta-se a si mesmo. É prisioneiro de sua própria aparência que lhe é irresistível e isso o faz sofrer. Sofre porque não consegue ter aquela imagem para si. Está tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Representa o eterno dilema da auto-sedução que não se realiza. Tem e ao mesmo tempo não a tem, porque essa é intocável, pode ser somente contemplada. É um amor platônico por si mesmo. Tocar a fonte de Téspias seria deformar aquela imagem tão bela e perfeita.

         Seu desejo é devorar-se a si mesmo. Tem a beleza desejada, idealizada, que todos querem possuir. Às vezes isso provoca a ruína, o que significa ver somente o ideal de si, um rosto bonito e não uma pessoa em sua inteireza. É uma imagem com muitos rostos onde o próprio EU não entra e esses rostos se confundem. Há o desejo de se tornar sedutor(a), de despertar desejos. E o sedutor(a) adquire uma imagem que não é sua, tem outra identidade, pois seu ego é frágil, nada sedutor.

         Ao contemplar-se nas águas da fonte, sua unidade rompe-se: o que era um parte-se em dois. É arrastado para fora de si. O que Narciso viu? O ideal de si e lutou para não perder essa imagem. Sua posição reclinada para baixo não permite ver a vastidão do horizonte, deixa-o envolto em si mesmo. Por isso a visão que tem do mundo é ínfima. Mas a imagem ideal refletida é inalcançável, isso o leva à morte como punição por não conseguir trazer para si a imagem desejada.

         Esse mito, ou lenda simboliza a imobilidade, a solidão e a infelicidade, porque Narciso não conseguiu vencer a sedução da própria imagem. Se isso acontecesse, teria que assumir responsabilidades sociais, enfrentar desafios, a realidade, as desilusões. Não há risco zero na vida. Exemplos? Basta prestar atenção na vida dos animais. Se ficar na toca certamente morrerá de fome e sede. É preciso enfrentar a realidade, mesmo sob o perigo de perder a vida. É também a busca da eterna beleza. Morrendo jovem e belo, seria lembrado assim, com sua juventude perpetuada. É a busca do aplauso, do reconhecimento. Esse ideal do belo provoca desejos irrealizados, prazer em seduzir e despertar desejos. Porém não permite que sejam satisfeitos. Isso leva à melancolia, o mundo perde o valor, a consciência aflige-se com fragilidade.

         O grande engano de Narciso foi errar na escolha de amor. Ao invés de dirigi-lo a outro, volta-se para si mesmo e comete um incesto intrapsíquico. Toda sua energia não se liga ao mundo externo e isso é patológico. O que ele ama é a sua sombra, o próprio reflexo, por isso não abandonou as águas da fonte. Somente ali essa ação é possível. Seu desejo era manter-se eterno, perpetuar aquela imagem que o seduziu e a sedução pelo eterno levou-o à morte.

         A fonte é o espelho que atrai e arruína. A imagem refletida não é o que aparenta. Mostra o que é e o que não é. Estimula na alma o desejo por uma imagem inatingível. Narciso achou que era a própria imagem, não se individualizou, não separou realidade e fantasia.

         Esse personagem também pode ser visto por outro ângulo, pois até aqui parece ser doentio. Todos têm um Narciso em si e isso leva a que cada um procure cuidar do próprio corpo; arrumar-se, enfeitar-se para agradar a si e aos outros demais. Isso não significa que esteja voltando sua capacidade de amar e ser amado só para si mesmo, mas tem a finalidade de encontrar alguém, ir em busca do outro e do mundo.

         Logicamente o mito presta-se para muitas outras interpretações. Porém Narciso perambula pela sociedade e está na personalidade de todos.

         O mito de Narciso nos mostra que vivemos na superficialidade, nas aparências. Somos seres sem profundidade.

         O mito de Narciso sempre quer falar algo do ser humano. De uma forma ou de outra sempre trazemos um Narciso dentro de nós. Narciso diz que cada ser humano tem que descobrir que ele é, e qual o caminho que o conduz à felicidade.

 

 

Atividade do caminho do Herói

Leitura do conto Hino de Pérola – Mapa do tesouro.

Era uma vez um reino pleno de paz, harmonia e abundância, onde reinavam com amor um rei e uma rainha, pais de um filho único.
 

Preparando-se para a sucessão foi enviado o príncipe a uma terra distante em busca da mais bela pérola, com a promessa de subir ao trono assim que retornasse.
Escoltado por seu povo fiel até os portões do reino, partiu o príncipe em sua missão. Viajou 40 dias e 40 noites antes de chegar cansado, faminto e em farrapos a um país desconhecido, onde encontrou abrigo numa estalagem. Sem dinheiro após a viagem, longa e desgastante, em troca de casa e comida o príncipe ofereceu trabalho, e por lá ficou.

 

Se adaptou à vida nova e encontrou companheira, amigos, um novo lar. O esquecimento tomou aos poucos conta de sua mente, e ele já não sabia quem fora, de onde viera ou o que tinha vindo fazer ali.

 

Parecia acreditar que sempre vivera naquele lugar, trabalhando na estalagem, e que em todas as tardes de sua vida se sentara naquela mesa com seu copo de cerveja…
Enquanto isto, em seu reino de origem, o povo ansioso e os pais amorosos aguardavam sua volta, pronto para assumir o trono.

 

Passou-se o tempo, e a inquietação tomou conta:
- Onde andará nosso príncipe? Já não deveria ter voltado? Preocupados, enviaram ao príncipe desaparecido um pombo-correio com uma mensagem urgente.
- Alteza! Recordai-vos de vossa linhagem nobre! Vossos súditos vos aguardam no retorno vitorioso de vossa missão para enriquecer nossos tesouros com a mais bela pérola! Voltai, filho amado, ao regaço saudoso de vossos pais!

Após longa jornada chega o pombo à estalagem, encontrando o príncipe a conversar animadamente com seus amigos.

 

O príncipe e somente ele podia vê-lo, ao pousar em seu ombro esquerdo e suavemente deslizar a mensagem, diretamente para dentro do ouvido. Sem mais hesitação o príncipe levantou-se, e num átimo recordou-se de sua história e missão. Correu até a beira-mar e mergulhou, surpreendendo a todos, num súbito ataque de aparente loucura.

 

Foi fundo, cada vez mais fundo. À sua volta a escuridão tomava conta, sem no entanto amedrontar nosso intrépido herói, que enfrentava o medo e continuava a descer. Mais fundo, cada vez mais fundo.

 

De repente, das trevas profundas, surgiu um dragão horrendo, de escamas refulgentes, a língua em longas labaredas, rugindo e provocando ondas. Nosso príncipe destemido o enfrentou:
- Não passas de ilusão, dragão, és fruto de meus temores e hesitações! Ouvindo isso, num passe de mágica, o dragão se desfez.

 

Do fundo do mar emergiu então, por trás da névoa do dragão desfeito, uma luz brilhante, fulgurante. O príncipe não tardou a encontrar a fonte: uma enorme ostra entreaberta, exibindo por entre a casca, rugosa e espessa, a mais cintilante das pérolas.

 

Com vontade e determinação, o príncipe forçou a ostra, que graciosamente permitiu-lhe tomar nas mãos a pérola deslumbrante. De volta à superfície, nadou até a praia e imediatamente pôs-se a caminho.

Viajou 40 dias e 40 noites, atravessou montanhas, riachos e desertos, no embornal a pérola fascinante, resguardada de olhares cobiçosos.

No terraço do palácio os semblantes reais, antes tomados de trágica ansiedade, se inundaram da mais pura alegria.

 

Vislumbrando ao longe um brilho intenso, já se aproximando dos portões do reino, comemoravam:
- Eis nosso príncipe que retorna! Carregado em triunfo por seu povo, aproxima-se o príncipe do palácio, onde finalmente revela a todos a magnificência da pérola que trazia.

 

Neste momento o rei, inflado de orgulho e contentamento, passa ao herdeiro cetro e a coroa, inaugurando com júbilo em seu reino uma nova era de amor, justiça e alegria.

 

Fazer um Cartaz daquilo que você quer concretizar na sua vida. Procurando imagens dos sonhos já em sua mente.

Seu cérebro responde como se isso já fosse concretizado.

 

Caminho do Herói

Divide uma cartolina em três partes
 

Espaço a esquerda- nesse local você colocará a sua fonte de poder, aquilo que é sagrado para você, o que é maior, aquilo a que você recorre.
 

Em termos psíquicos é o inconsciente, o self em termos coletivos, é a concepção de Deus, algo muito maior, aquilo que é Deus para cada um (natureza, sagrado, fonte de poder)
 

Espaço no centro- o eu superior, nesse local está seu mestre interno, os guias que lhe fornece os meios, do guia, do mestre interior, o sábio dentro de nós, pode ser a sua criança interior, um animal, uma sabedoria interna. O mestre interno faz a ponte entre o consciente e o inconsciente.


Espaço à direita- é aquilo em cuja direção você está caminhando agora, o que você quer da sua vida (profissão, casa, casamento) aquilo que expresse o tesouro que você quer acessar.


Você pode expressá-lo através de colagem ou desenho, mas a imagem pronta ajuda muito. É uma forma interessante de se construir um projeto de vida, visualizando qual é o seu horizonte, para onde você está caminhando.


Ao invés de dividir em 3 partes, pode-se construir um caminho porque algumas pessoas tem dificuldade em unir sonho e realidade.


O ponto de partida é onde eu estou, a minha realidade agora como forma de aceitar ela para poder transformá-la.


O caminho é construído da esquerda para a direita(futuro consciência colocando a esquerda onde se está e a direita onde se quer chegar, colocando um caminho construído com imagens daquilo que se precisa e do que é necessário conquistar para chegar ao tesouro.


Pode-se elaborar um jogo como o caminho dos xamãs, como simbologia indígena, pensando na ideia de construir o caminho do herói(como em um jogo de dados cheios de casas a avançar) onde estou e onde quero chegar, como num jogo de tabuleiro onde as casas são os obstáculos que você precisa vencer para alcançar onde você quer chegar.

 

 

Na primeira tarefa, Afrodite ordena a Psiquê que organize uma enorme pilha de sementes de tal forma que cada uma delas esteja em seu lugar apropriado antes do anoitecer.

Desesperada, Psiquê chora muito. Suas lágrimas atraem um batalhão de formigas que vêm ajudá-la. Esta tarefa nos ensina a primeira etapa para amar: é preciso confiar em nossa capacidade inata de selecionar, analisar, avaliar. Devemos dar vazão aos nossos instintos: escutar frases soltas que eclodem em nosso interior quando contemplamos inocentemente nosso amado. Para classificar, não podemos ter medo de nos separarmos da agradável sensação de estarmos fundidos ao outro.

Esta sensação de bem-estar ocorre enquanto nosso cérebro libera dopamina e norepinefrina, dois dos principais neurotransmissores do organismo. Eles aceleram nossa pulsação e aumentam nossa percepção. A alquimia do amor é uma bênção; no entanto, não podemos deixar que o feitiço se vire contra o feiticeiro. Para tanto, precisamos manter a ordem e a clareza, isto é, saber nos separarmos de nossos parceiros diante de nossas diferenças.

Ao ver o outro como ele é e não como gostaríamos que fosse, não seremos mais tomados pela magia do amor romântico, pois já não podemos nos perder no outro, mas seremos capazes de um amor mais profundo, baseado na dádiva de cultivarmos uma admiração consciente por ele.

Classificar onde sou diferente de você contribui para que a relação se torne mais rica. Neste sentido, a primeira tarefa consiste em não termos medo de ressaltar as diferenças de cada um; do contrário, a relação estaria baseada na auto-anulação de ambos. Nesta etapa, aprendemos a nos separar em prol de uma união complementar.

Atenção: não há porque temer que a atitude de definir suas necessidades o torne egoísta, pois mais à frente será justamente a sua capacidade de estar em dia com elas que lhe dará condições para trocar e somar algo com o seu parceiro.

A segunda tarefa para amar

A primeira tarefa consistiu na importância de identificar e expressar com clareza nossos valores, sentimentos e necessidades. Agora, a segunda trata de olharmos para além de nós mesmos: compreender que o universo é maior do que o nosso próprio mundo.

Na segunda tarefa, Afrodite ordena a Psiquê que junte alguns velos dos grandes e agressivos carneiros dourados de sol que, enquanto pastam em torno do rio, dão-se marradas disputando o domínio do rebanho.

Inicialmente, Psiquê até crê que dará conta do recado, mas ao confrontar-se com a força poderosa da agressividade, mais uma vez se desespera e planeja jogar-se no rio. No entanto, o deus Hélio (o sol) refletido nas águas do rio a alerta: À noite, os carneiros adormecem. Você pode então colher a lã dos arbustos nos quais os carneiros se esfregaram durante o dia.

O desafio desta segunda etapa nos ensina a lidar com o poder das forças destrutivas, assim como a auto-agressão. O mito nos diz para abandonarmos o espírito da competição para atingir nossos objetivos. Ele nos inspira a negociar em vez de agredir. Isto é, a usar nossa astúcia e a força pessoal no mundo competitivo sem nos deixarmos atemorizar por ele, o que nos levaria a nos tornarmos rígidos e acuados.

Quando o espírito competitivo se estabelece numa relação, ela se torna intoxicada: surge a irritação como alerta de que não há energia disponível para a atração, quer dizer, desejo de proximidade. Sem que se dê conta, a competição surge até na capacidade de provar quem ama melhor! No entanto, nesta etapa não há espaço para vitimização. Por exemplo, quem sempre abre mão de suas reais prioridades em prol do outro, deve refazer a primeira tarefa!

Quando se estabelece na relação um código de que quem ama deve se sacrificar, o casal passa a competir na dor: quem agüenta mais tempo calado evitando expressar suas próprias necessidades. No entanto, essa imagem de aparência tolerante e heróica nos torna cada vez menos disponíveis para nos sintonizarmos com as necessidades mais profundas de nosso parceiro. É como se estabelecesse na relação uma regra secreta na qual ninguém terá direito a regalias, apenas a deveres! Assim, sem nos darmos conta, estaremos competindo na capacidade de suportar uma tensão subjacente que passa a crescer sob a aparência de que tudo vai bem... enquanto nenhum dos dois reclamar!

A artificialidade impede a comunicação sadia entre duas pessoas, pois ela desperta uma atitude de se estar em guarda que é o oposto da confiança. Quando não há espaço na relação para ambos expressarem seus sentimentos mais profundos, algo torna-se paralisado, assim como o ar pesado logo antes de chover. A chuva ao cair traz frescor e renovação. Os sentimentos, quando arejados, deixam as relações energizadas...

Sentimentos de origem profunda como rejeição e abandono podem estar encobertos por atitudes de indiferença e até mesmo de desprezo pela atenção alheia. No entanto, eles estão lá em nosso interior, esperando por atenção, consciência e clareza.

O antídoto de uma competição subjacente é a expressão da verdade: cada um deve encontrar uma forma de expor suas necessidades ocultas. Esperar que o outro as adivinhe é uma tortura para nós mesmos e uma armadilha para o outro. Pois, se ele não souber adivinhá-la, será julgado e punido por sua insensibilidade. Como mulher, posso confessar que reconheço que nós mulheres encaramos facilmente como rejeição a fragilidade de um homem. Às vezes eles simplesmente não sabem se expressar!

Quando nos sentimos bloqueados, incompreendidos ou incapazes de compreender, passamos a ter a desconfortável sensação de inexistência diante do outro, como se disfarçássemos nossa presença agindo como se não precisássemos ser vistos. No lugar de preencher esse vazio com fantasias de auto-anulação, o melhor é simplesmente declarar abertamente para o seu parceiro: Preciso de mais esclarecimento!

Quem tem medo de se expressar tem medo de não ser aceito, por isso pensa que precisa sempre estar agradando. No entanto, cansa estar ao lado de pessoas que não se revelam.

Certa vez, Lama Michel me disse: Não é porque alguém está mal com você que você tem que ficar mal com ele. Só te resta um treino de paciência. Neste momento, é como querer organizar as nuvens... é impossível! Há um momento certo para tudo, às vezes precisamos largar o conflito e esperar que as coisas se auto-organizem, pois acabamos por criar interferências ao querer organizá-las. Outras vezes, temos de agir prontamente.

Dr. Harville Hendriz, em seu livro Todo o Amor do mundo, comenta: No trabalho com casais, já testemunhei tantas vezes esse fenômeno no qual a cura se manifesta como um processo de mão dupla, que hoje posso dizer com segurança que a maioria dos maridos e mulheres tem necessidades idênticas, mas o que um reconhece abertamente é negado pelo outro. Quando o parceiro que nega consegue vencer sua resistência e satisfazer a necessidade do que declara, uma parte do inconsciente interpreta o novo comportamento como ser fosse voltado para seu próprio benefício. O amor por si mesmo é obtido através do amor pelo outro.

É interessante que quando um dos parceiros revela com honestidade e amor algo que o incomoda, o outro passa a escutá-lo com mais abertura, pois sabe então, intuitivamente, que desta forma ele também terá a oportunidade de expressar-se sem defesas. Assim, gradualmente o espírito competitivo se dilui e surge a confiança de poder ver o outro e ser por ele visto.

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